Perceba qual o clima e salve seu ambiente de trabalho

Embora conhecida, vale a pena recordar a história do barqueiro de Percepolândia.

“Num distante país, havia uma cidade chamada Percepolândia. Para chegar a ela os viajantes precisavam atravessar um rio muito largo e perigoso. Apenas um barqueiro, muito experiente, fazia essa travessia com toda a segurança. Certo dia chegou uma família que se mudava para a cidade. Durante a travessia o chefe dessa família perguntou ao barqueiro:

- O senhor acha que vamos gostar de Percepolândia?

- Não sei. Depende de onde vocês estão vindo. Como era a cidade em que moravam? - respondeu o velho.

- Era um lugar terrível. As pessoas se odiavam. Nossos vizinhos eram muito mal educados. Todos jogavam lixo na rua. Os professores eram péssimos. Nós não agüentávamos mais conviver com essa espécie de gente mesquinha e desagradável. Por isso resolvemos nos mudar para longe daquele inferno

- Acho que vocês não vão gostar de Percepolândia. Ela é muito parecida com essa cidade de onde estão vindo. – falou o barqueiro.

O viajante pediu que o barco retornasse, pois iriam procurar outro local para morar.

Pouco tempo depois, outra família chegou, também de mudança, e contratou o velho barqueiro para levá-los. Durante a travessia veio a pergunta:

- Será que vamos nos acostumar com Percepolândia?

- Não sei. Depende de onde vocês estão vindo. Como era a cidade em que moravam? – respondeu o barqueiro.

- Era uma cidade muito feliz. Todos éramos amigos. A cidade era limpa e organizada. As crianças amavam seus professores e gostavam de ir à escola. Sempre havia motivo para comemorarmos alguma coisa. Só estamos nos mudando por que precisávamos de uma casa maior e não havia nenhuma disponível.

- Com certeza vocês vão se adaptar rapidamente a Percepolândia. Ela é muito parecida com essa cidade de onde saíram. – disse o velho barqueiro.

E continuou remando.”

A conclusão é óbvia. O ambiente pode ser o mesmo para todos, mas cada um o perceberá a partir de seu próprio ponto de vista. O mais importante é a conclusão do sábio barqueiro: o ambiente será aquilo que você construir a partir de suas percepções. É possível filosofar muito sobre realidade e percepção e isso tem sido feito nos últimos milhares de anos. Mas o mundo corporativo nem sempre pode se dar ao luxo de filosofar. É preciso agir sobre os efeitos dessa dicotomia. Embora um lápis seja um lápis, é preciso saber como as pessoas interpretam (percebem) esse lápis. É feio, pequeno, duro, inútil? Ou é bonito, durável, macio, prático?

As empresas nem sempre se dão conta disso, mas entender como as pessoas percebem as realidades da organização e dos negócios está ficando cada vez mais crítico. Afinal, são as pessoas que corporificam as empresas e o fazem segundo suas próprias percepções. A perenidade sustentável das corporações depende, cada vez mais, da compreensão integrada do papel que todos os interessados (stakeholders) exercem sobre elas. Com o despertar dessa consciência tem-se tornado quase obrigatório, especialmente para as empresas de maior porte, buscar essa compreensão através de ferramentas apropriadas. Proliferam, por isso, as Pesquisas de Clima Organizacional. Há muitas empresas que fazem isso por sua própria conta ou contratam consultorias para fazê-lo de forma mais isenta. Há muitos bons fornecedores nesse mercado.

Porém uma Pesquisa de Clima é apenas parte da lição de casa, obrigatória, para quem quer realmente entender as percepções com as quais tem que lidar. Ela traz informações estatísticas e quantitativas essenciais, mas não conclusivas. É preciso ir além desses números frios. Por que o restaurante, que é exatamente o mesmo para todos, agrada a uns e desagrada a outros? Porque políticas de RH são satisfatórias para uns e não para outros? Porque o mesmo gestor é percebido diferentemente por membros de sua equipe de trabalho? Enfim, porque alguns estão satisfeitos e outros não e a empresa é a mesma para todos.

Para entender estes “por quês” é preciso estabelecer um sistema de pesquisa organizacional mais amplo. É necessário encontrar diferentes formas de “ouvir” continuamente a manifestação das percepções de colaboradores, clientes / fornecedores (internos e externos) e demais interessados. Devem ser definidos processos, permanentes como da própria natureza dos processos, que permitam o monitoramento contínuo do cenário comportamental das organizações.

E, para dar significado à existência de um sistema de pesquisa organizacional, o processo deve alimentar um sólido programa de gestão do clima. Afinal, o clima também ajuda a determinar se os recursos organizacionais serão usados produtivamente para o sucesso dos negócios e sustentabilidade da organização. Ou não.

Enfim, não basta saber “o quê”; é preciso saber “por quê”. Não basta olhar o termômetro e saber que lá fora está 20ºC. Será que está frio ou quente? Por que você pegou este agasalho antes de sair?

Paulo Celso de Toledo Jr.
Fonte: HSM
http://www.hsm.com.br/editorias/liderancaemotivacao/perceba_clima_270109.php?ppag=2